Acidificação dos Oceanos: o que isso significa?



Para fazer a conservação e preservação dos oceanos, algumas linhas de frente diferentes precisam ser tomadas ao mesmo tempo. Uma dessas frentes é a luta contra a acidificação dos oceanos e minimização dos seus danos à biodiversidade (1). Isso é muito falado nas mídias, mas o que é a acidificação dos oceanos? Por que isso é um problema? Mas antes de explicarmos a acidificação dos oceanos, precisamos entender o que é acidificação.


Mas o que é acidificação?


As coisas ao nosso redor são feitas de átomos, e quando esses átomos se ligam, eles formam as moléculas, as substâncias do que tudo é feito. Na maioria das vezes, as moléculas tem uma carga elétrica neutra (+-), porém algumas possuem uma carga elétrica positiva (+) ou negativa (-) a mais. Essas substâncias são chamadas de íons, e são os íons H+ e o OH- que nos interessam aqui (2).


Chamamos de substâncias ácidas aquelas substâncias que no meio aquoso (um meio de água como principal componente) liberam H+, e chamamos de substâncias básicas ou alcalinas aquelas substâncias que liberam OH- no meio aquoso. Se o meio aquoso tem mais H+ que OH- no seu meio, ele está ácido. Se o meio tem mais OH- que H+, ele está básico. E existe uma escala para isso: quanto mais para o ponto 0 do pH, mais ácida uma substância é, e quanto mais para o ponto 14 do pH, mais básica a substância é. O ponto 7 é o “ponto neutro” porque H+ + OH- = H2O, que é a molécula de água.

Naturalmente, os oceanos deveriam estar em um pH de 8,2, mas estão ficando 30% mais ácidos que em 1800 (3). Isso é assustador, mas o que está causando esses eventos?


O que está causando essa acidificação?


Os oceanos são grandes, com um volume de 1.332.000.000 de quilômetros cúbicos (1 quilômetro cúbico=1.000.000 (1milhão) de litros) (4). É muita água para ser acidificada, então é preciso algo grande para fazer isso: nós.


Nossos impactos ambientais estão causando essas mudanças no pH dos oceanos, os deixando mais ácidos. E o que estamos fazendo para isso? Simples: nossas emissões de dióxido de carbono, o CO2, na atmosfera, e com boas evidências disso (5-16). E por que o CO2? Quando o CO2 se mistura com a água, é formado o ácido carbônico, o H2CO3, liberando na água íons H+ e o carbonato (17).

E por mais que o ácido carbônico seja um ácido fraco, com capacidade de liberar muito poucos íons, as emissões que começaram desde o início do século 19 foram suficientes para causar o cenário atual que estamos vivendo. Mas afinal, por que é ruim esse fenômeno? Por que a acidificação dos oceanos é assim prejudicial? É prejudicial para quem?


Por que a acidificação dos oceanos é ruim?


Os impactos disso afetam a biodiversidade, que sofre muito com a acidificação e isso já está sendo visto na natureza (18, 19). Com isso, podemos separar os impactos à biodiversidade em dois grupos: impactos diretos e indiretos.


Dos impactos diretos, podemos citar os efeitos biológicos e químicos que os seres vivos sofrem por causa da acidificação, e um dos mais atingidos são os corais (20). Os corais são seres vivos que produzem um exoesqueleto (um esqueleto “do lado de fora do corpo”) feito de uma substância chamada carbonato. Para os corais conseguirem produzir esse exoesqueleto, a água ao redor precisa estar em algo chamado estado de saturação de argonita (um mineral que contém carbonato) entre 4 e 5, e acidificação dos oceanos está dissolvendo o carbonato, fazendo o ponto de saturação de argonita estar em níveis abaixo de 4, que dificulta a formação dos exoesqueletos (21, 22).

Nos últimos 30 anos, o revestimento da Grande Barreira de Corais da Austrália começou a cair em 50% (23). Não apenas os corais, mas outros organismos são impactados de forma direta pela acidificação (24, 25).


Já os impactos indiretos se referem não aos efeitos biológicos e químicos no ser vivo, mas aos efeitos que o ser vivo sofre pela interferência da acidificação na ecologia daquele ambiente. Também podemos citar os corais nesse tipo de impacto, pois abrigam e protegem diversas formas de vida. Os danos que vêm sofrendo podem pôr em risco a sobrevivência de diversas espécies, inclusive de valor econômico (26-28).


Preciso me importar com isso?


Como já falamos aqui outra vez, se preocupar com o bem-estar dos oceanos é vital. Esses impactos nos oceanos também possuem impactos econômicos e sociais (29, 30). É necessário agir agora, para que não tenhamos que nos desesperar amanhã.



Fontes:

  1. Artigo científico: https://www.jstor.org/stable/24861020?seq=1

  2. livro: Peter Atkins, Loretta Jones e Leroy Laverman, 2018. Princípios de Química. 7ª edição, editora Bookman. p.445-448

  3. Livro: Elizabeth Kolbert, 2014. A Sexta Extinção. Editora Intrínseca. p.106

  4. Artigo científico: https://www.jstor.org/stable/24860721?seq=1#metadata_info_tab_contents

  5. Artigo científico: Ocean Acidification: The Other CO2 Problem | Annual Review of Marine Science (annualreviews.org)

  6. Artigo científico: https://www.int-res.com/abstracts/meps/v373/p295-302/

  7. Artigo científico: https://www.nature.com/articles/nature04095

  8. Artigo científico: https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1029/2008GL035072

  9. Artigo científico: https://link.springer.com/article/10.1007/s12237-013-9594-3

  10. Artigo científico: https://royalsocietypublishing.org/doi/full/10.1098/rstb.2012.0442

  11. Artigo científico: https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/grl.50883

  12. Artigo científico: https://science.sciencemag.org/content/320/5879/1020

  13. Artigo científico: https://www.tos.org/oceanography/article/ocean-acidification-present-conditions-and-future-changes-in-a-high-co2-wor

  14. Artigo científico: https://bg.copernicus.org/articles/9/2509/2012/

  15. Artigo científico: https://science.sciencemag.org/content/305/5682/367.abstract

  16. Artigo científico: https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1029/2009GB003599

  17. Artigo científico: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/0584853991800973

  18. Artigo científico: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S027277140900537X?casa_token=LRscI4uMplUAAAAA:at2pUR-RH89dlXLKjV2azx9m-fI9BmHwvFIzhiXb_lcFqUWKVMbIyvEfjt8EXEufbUGBRa_62A

  19. Artigo científico: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0022098111000694?casa_token=zpI6vT9qpesAAAAA:wdz3BlKZYLvK0cQFyZgvfCaaPtUMnCeAqxff1uthR0B4Tp9W5Jtm84LCQey72OcEgEaC5cAeLA

  20. Artigo científico: https://royalsocietypublishing.org/doi/full/10.1098/rspb.2015.0990

  21. Livro: Elizabeth Kolbert, 2014. A Sexta Extinção. Editora Intrínseca. p.120, 125-127

  22. Artigo científico: https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1029/2008GL036282

  23. Artigo científico: https://www.pnas.org/content/109/44/17995.short

  24. Artigo científico: https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-0-387-09565-3_14

  25. Artigo científico: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0025326X13000131?casa_token=qaNcSjGHkaUAAAAA:m2GUJMkKOaMUDezv8mL73ew43nElFtzxJxYcQdZRUPt3THtOEsp46LmaLxFkXQ98nT5ZUstoaA

  26. Livro: Peter Castro e Michael E. Huber, 2012. Biologia Marinha. 8ª edição, editora AMGH. p.322-324

  27. Artigo científico: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0025026

  28. Artigo científico: https://science.sciencemag.org/content/321/5888/560.abstract

  29. Artigo científico: https://link.springer.com/article/10.1007/s10584-011-0383-3

  30. Artigo científico: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/faf.12183